Quinta, 14 Dezembro 2017

Crise na Venezuela chega ao Brasil com o drama dos refugiados

Uma viagem longa, muitas vezes com mais de mil quilômetros e alguns trechos feitos a pé. Os venezuelanos estão fugindo da fome, da miséria e da repressão violenta nas manifestações contra o governo do presidente Nicolás Maduro.

Pacaraima é uma pequena cidade de fronteira no Brasil por onde entram milhares de venezuelanos que perderam a esperança no seu país e chegam aqui em busca da sobrevivência. A crise na Venezuela é um dos principais assuntos na imprensa mundial e se reflete nos países vizinhos. A pequena Pacaraima nem seria notada não fosse sua localização geográfica. Ela fica bem na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. No posto de controle da Polícia Federal para receber os venezuelanos, muitas pessoas se acumulam em fila antes mesmo da abertura para pedir autorização para entrar no Brasil. Muitos pedem status de refugiado para permanecer um tempo maior no Brasil e tentar uma vida melhor.

A quantidade de jovens que pede oficialmente a entrada no Brasil é um sinônimo da gravidade da situação na Venezuela e da desesperança que há em relação ao futuro. Elisabete trabalhava no campo. Ela conta que deixou três filhos com a mãe para tentar um futuro melhor aqui. Diz que na Venezuela não há emprego e que a falta de alimentos já fez ela perder 30 quilos só no último ano.

Quantos são ao certo ninguém sabe, mas estima-se que pelo menos 30 mil venezuelanos entraram no Brasil só esse ano. Oficialmente, até julho, quase 9,3 mil pediram refúgio. A maioria são jovens entre 20 e 25 anos, solteiros e estudantes, mas há famílias inteiras, profissionais liberais, agricultores. A pequena Pacaraima de 12,4 mil habitantes, de repente se viu invadida.

Estima-se que hoje 25 mil pessoas estejam usufruindo dos benefícios da cidade. Na rua principal, os venezuelanos passam o dia se oferecendo para carregar e descarregar os caminhões que vão buscar alimento. Donos de um mercado na Venezuela compraram 2,5 toneladas de arroz por R$ 6 mil. Como o bolivar, o dinheiro venezuelano, vale muito pouco, o porta-malas vem cheio de dinheiro. A quantidade de crianças impressiona.

Um indígena da etnia warao diz que está com seis pessoas da família há quatro meses em Pacaraima. Sobrevive de bicos e de doações de alimentos. Só em um trecho no encontro de duas ruas, há uma turma de pessoas vivendo de uma maneira muito precária. A situação é lamentável. Quem tem negócios na cidade, reclama. “Não vem mais ninguém. Meu hotel tem dia que não tem uma pessoa. Por que? Quem que vem para cá com essa situação? Mostrar o que? Mostrar essa realidade? As crianças dormindo no chão? Para nós que somos seres humanos, nós sentimos muito com isso”, diz Ubirajara Rodrigues, dono de um hotel.

Para muitos, a única refeição do dia é o café da manhã que o Padre Jesus oferece. Ele mostra os punhos e a boca feridos, quatro dias antes da reportagem, ele foi assaltado por dois venezuelanos. “Se eu mudasse e suspendesse esse café, seria a vitória do mal ante o bem. Um absurdo, né? A gente continua”, diz.

No posto de saúde de Pacaraima, hoje, 80% dos pacientes são venezuelanos. Muitos chegam com leishmaniose, malária, dengue e tuberculose. Mas faltam médicos e medicamentos. Sem recursos, o prefeito Juliano Torquato quer que o governo de Roraima decrete estado de emergência no município para conseguir uma ajuda do Governo Federal. “Nós tínhamos a esperança de vir uma ajuda o mais rápido possível e, infelizmente, não é o que está acontecendo. Então nós vamos mudar um pouco agora os nossos planejamentos aí, nossas ideias, nossa equipe de gestão do município e procurar resolver para não acontecer coisas piores mais pra frente”, explica. Representantes do Governo Federal, estadual e até da ONU já estiveram em Pacaraima. Eles fizeram um levantamento e escolheram um lugar para a construção de um centro de acolhimento, com capacidade para 250 pessoas. A obra foi orçada em R$ 800 mil, com dinheiro do Governo Federal.

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